Meu velho

Nem sei quando o chamei de “meu velho” pela primeira vez… mas sei que ele não achou ruim, porque sabia que atrás dessa expressão estava um carinho imenso, e nada de desrespeito.

Quando eu nasci, ele já tinha mais de 40 anos. Trabalhava no Banco do Brasil, e portanto sumia o dia todo. Era de se supor que fôssemos distantes. Ainda mais eu, que não nasci o menino que ele tanto desejou. Ainda bem que todas as expectativas estavam enganadas!

Não sei como ele fazia, mas eu me sentia a mais amada e “atendida” das criaturas. Ele chegava do Banco cansado e teoricamente estressado… mas nunca descontava nada em mim. E eu pulava em cima dele e íamos brincar de “luta”… e sabíamos exatamente onde cada um mais sentia cócegas.

Ele gostava de “dar uma andadinha” e eu me sentia uma princesa (já disse isso aqui) segurando sua mão. Cada vez que eu me arrumava de uma maneira diferente e perguntava: “pai, que tal?” a resposta era sempre a mesma: “você é linda de qualquer jeito!” Opinião que nunca contava, ele era incapaz de dizer outra coisa. Mas serviu pra deixar minha auto-estima nas alturas!

Ele sempre foi o ponto de equilíbrio na relação tumultuada com minha mãe, que se um dia eu chamar de “minha velha” vai se sentir ofendida. Ele vai a ela e vem a mim com palavras brandas pra acalmar as discussões, cuida de um lado e de outro, de uma maneira tão sábia que custo a crer que exista mais alguém assim no mundo.

Equilíbrio, aliás, é a palavra que o define. Equilíbrio emocional, financeiro, espiritual… só não tem equilíbrio na hora de comer! A piadinha particular é que ele faz uma dieta muito difícil: “só come o que é comestível!” Não é de confiança pra dar opinião sobre comida, pois pra ele tudo é uma delícia, até algo que todo mundo enjeite, ele come o dele e o nosso. E uma jarra de suco depois. E mais a coca que bica do meu copo. É um “participante”!!!

Poucas vezes o vi chorar. Nunca de dor física. E as últimas, foram por conta de meus sofrimentos. Sei que ele daria sua vida por mim, como muitas vezes deixa de ter/comprar algo pra si, pra cobrir meus buracos financeiros.

Herdei dele a pele branca, o cabelo liso, claro e oleoso, a unha encravada… e não os belos olhos azuis. Grrrrrrrr!!! Descobri há pouco tempo que herdei dele também a serenidade nos grandes problemas. (não nos pequenos!)

Deve ter sido muito duro pra ele conviver com duas mulheres DDAs em casa, e depois com mais duas crianças. Que herói…

Sua fé em Deus e sua dedicação a Ele são marcas que ficarão para sempre na minha vida, pois moldaram meu caráter. A integridade, a verdade e a honestidade em cada detalhe de sua vida são inspiração pra qualquer pessoa que o conhece. Nunca peguei meu pai numa mentira. O que não quer dizer, obviamente, que ele nunca mentiu. Mas fui criada assim: “Quem fala a verdade não merece castigo“. E diante daqueles olhos, como eu podia mentir??? Sim, sim, sim, eu menti por muito tempo quando comia na cantina do BB e anotava o lanche dos colegas e ficava com o dinheiro deles pra mim. E ele, todo feliz porque eu, “ruim de boca”, que era, estava comendo!!!

Não posso dizer que ele não tenha defeitos. Mas os defeitos se perdem em meio a tantas virtudes e tanto amor. Sou apaixonada por ele, desde sempre… e vou morrer assim. Pior é que sei que ele também é apaixonado por mim! Deseja minha felicidade e por esse desejo me suporta incondicionalmente. Foi muito fácil entender e aceitar a figura de Deus como pai… porque tenho um pai como ele.

Qaundo fez 80 anos, cantei pra ele uma música, que diz assim, e é a mais pura verdade:

“Velho, o tempo já se foi,
As águas são passadas, moinhos não movem mais…
Velho, de um dia tão antigo, teus dias gastos comigo
fizeram de mim o que sou.

Velho, o tempo está aqui,
No filho que é teu renovo, de novo a vida se fez!
Velho, tu foste a semente, pra que eu fosse somente a continuidade de ti:

Fruto do tronco dessa vida tua,
Em plena rua teu vigor roubei, da tua paz tirei,
Do teu amor suguei, do teu suor comi, no teu calor dormi…
Sou filho teu!”

Paulo César (Logos)

Como não encontrei essa, apelei pra “meu querido, meu velho, meu amigo”, que apesar de “brega”, é plenamente apropriada para o momento.

As fotos não foram as melhores… mesmo porque não achei quase nenhuma foto minha com ele, mas… registrei alguns momentos importantes de meu velho com “seus filhos”, porque os meus são um pouco dele também!

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