Dia de despedida.

Peço licença para adaptar um texto de Affonso Romano de Sant’Anna recebido por e-mail exatamente na semana em que vivo esta situação. Sem aspas porque tem coisa minha pelo meio.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. E como crescem! Deveria ser proibido que os filhos ficassem maiores que as mães, e nos deixassem com dificuldade de colocá-los no colo, de envolvê-los com nosso abraço, como a galinha abriga nas asas seus filhotes.

Eles crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre, e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente. E engrossam a voz de repente também.

Um dia sentam-se perto de você à mesa e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquele danadinho que não percebi?

Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal? (Bota babador, tira babador...) Cadê os brinquedos espalhados pela casa, peças de Lego, bonecos de Playmobil e aquelas adaptações que só a mente infantil pode entender… (como uma caixa de creme dental e um canudo de plástico grosso permitirem uma luta de espadas)? Cadê os joelhos ralados em quedas de bicicleta, o queixinho partido na piscina do Social, as lágrimas escorrendo de pânico porque teve medo de um cachorro???

A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil… Desejando dirigir carro e moto, assistir filmes fora da faixa recomendada, esticando ao máximo o horário de dormir (e de chegar em casa, em alguns casos).

Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas,
das notícias e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos.

Não mais os pegaremos nas portas da escola. Passou o tempo da Clave de Sol, da natação e do coralzinho. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Ficou para trás o tempo em que eu ia à cama deles ma hora de dormir para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, desenhos e agendas coloridas. “-Todos a bordo? – Sim, Senhor!” Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui…

Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. E que tantas vezes eles precisaram e nem pediram.

Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto. No princípio éramos todos juntos nos passeios entre embrulhos, bolachas, protetor solar, Muricalm e Dramin para aguentar as viagens de quase um dia inteiro. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.

Depois chegou o tempo em que as viagens deles começaram a acontecer antes das nossas. E dois ou três meses por ano eles viviam na Terra do Nunca, sem responsabilidades, sem horários, muitas vezes até sem banho, já que não tinha a Mamãe Bruxa Má do Oeste para impingir este sacrifício.

Agora chegou a hora de ficar definitivamente exilada dos filhos. Morrer de saudade completamente, já que se vai o companheiro dos últimos três anos, quando fomos só eu e você, você e eu.
Chega o momento em que só me resta ficar de longe torcendo e orando muito (nessa hora, quem tinha desaprendido, reaprende a orar) para que ele acerte nas escolhas em busca de felicidade. E que a conquiste do modo mais completo possível. Nos estudos e na vida profissional. Nos experimentos diários e na vida emocional. Na fé provada nos pequenos detalhes e na vida espiritual. Na vida distante dos olhos mas perto do coração.

Meu filho:
Acabou minha parte, agora é com você. Mas não pense que você estará sozinho. Seu dia a dia, suas conquistas (e derrotas), os detalhes do que você sente, são somente seus, em experiência, mas são meus também no sentir. E eu fico feliz de que você esteja saindo de casa para fazer vestibular, e não para uma clínica de recuperação de viciados. Que você esteja caminhando para o futuro e não fugindo do passado. Que Deus esteja nos dando condições de que você realize tudo isso. Que seus sonhos, ainda enevoados, começam a ser construídos como realidade.

Vou chorar, eu sei. Muitas vezes. Cada vez que lembrar que você cresceu. Mas ao mesmo tempo, sei que estou tendo um orgulho grande em dizer que você cresceu, e que está buscando seu caminho, fazendo sua história.

Nunca se esqueça que você terá sempre pra onde voltar, se precisar. E uma volta não é uma derrota. Um barco volta ao estaleiro para manutenção, e sai de lá renovado, mais forte. Assim é a casa da mãe: o lugar para onde SEMPRE se pode voltar.

Nunca se esqueça nem um segundo que eu tenho o amor maior do mundo,
e como e grande o meu amor por você!

***************

Meu PC pifou de vez, o gmail não entra no PC do filhote, meu notebook não conecta nem a pau. Estou correndo com os documentos de um emprego novo (lembram do concurso REDA que fiz ano passado? Pois é, chamaram agora. E desde o começo da semana estou indo a médico para fazer 1488 exames e conseguir um laudo de que eu sou saudável e não estou doida). Vera (meus braços e minhas pernas, minha agenda e meu juízo) entrou de férias e viajou com grandes possibilidades de ficar por lá. Não sei como vai ser a vida daqui pra frente, mas nas palavras de uma amiga, perdi um filho e ganhei um emprego, perdi uma empregada e ganhei uma marmita. Quem viver… verá.

(Explicada por não estar nem lendo o Google Reader e muito menos comentando nos blogs amigos?)

UPDATE: Saiu o resultado da primeira etapa de seleção do Mestrado. Fiquei na raspa, mas passei!!! Ai meu Deus…

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