Desafio Literário 2010 – Fevereiro

Sim, eu sei que já estamos em março, mas juro que li em fevereiro. O desafio para este mês consiste em “Um livro que nos remeta aos contos de fada. Não necessariamente um livro infantil, pode ser uma adapação, ou até um livro psicológico”. Escolhi Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol.

image

Já havia lido em quadrinhos numa série de Clássicos da Disney, em livro grande, formato de revista antiga, grossa… lembro nitidamente da série inteira, que eu adorava. Também já tinha assistido várias vezes em desenho, quando meus filhotes eram pequenos. Mas nunca pensei a sério no conteúdo do livro.

Nesse meio tempo ouvi vários comentários sobre o autor e como o livro nasceu, e as múltiplas referências que ele traz, inclusive a uma viagem alucinógena de LSD. Depois de ler/ouvir esses comentários, não tinha voltado a ler, ou melhor, ainda não tinha lido o livro original. Encontrei o e-book, e foi legal porque pude selecionar alguns trechos interessantes para reler, ou observar com mais atenção.

Sinopse:

Alice é uma menina sem idade determinada, creio que pré-adolescente. Questionadora e impaciente com a vida como lhe é apresentada, como os “livros sem figuras” que a irmã lê. Num momento de tédio, enxerga um Coelho Branco reclamando que “é tarde!” e num rompante segue o tal coelho, que entra numa toca que vai dar no País das Maravilhas. Lá ela encontra personagens exóticos e completamente fantasiosos, como o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março, o Leirão, a Duquesa, o Gato de Cheshire, o Rei e a Rainha de Copas, que lhe dizem coisas aparentemente sem sentido, mas que lhe levam a pensar sobre a vida e sobre muita coisa séria, até mesmo para uma criança. A história termina com Alice sendo  acordada por sua irmã, dando a entender que tudo aquilo foi um sonho. 

imageÉ claro que dei uma pesquisada, pra ver se encontrava algo sobre drogas e tal, ainda mais que nunca experimentei nada disso.  Está claro que é um livro de fantasia, nada daquilo é possível, mas existem muitas interpretações possíveis. O livro foi escrito em 1862, LSD, pelo que sei, nem  existia. Descarto, então a hipótese de alucinação por droga, pelo menos, por essa droga. No entanto, existe a alusão  a comer um cogumelo, a tomar um chá que não acaba nunca, comer um bolo, tomar uma poção, tudo isso fazendo com que Alice aumente ou diminua de tamanho, o que pode indicar, sim, uma série de alucinações. Nesse sentido, veja o que encontrei:

Lewis Carroll autor do livro dentre todas suas peculiaridades sofria de fortes crises de enxaqueca que é uma das causas de uma síndrome descrita pelo Dr. John Todd em 1955. E sabe qual é o nome da síndrome? Síndrome da Alice no País das Maravilhas. Isso mesmo. Há relatos de casos onde o paciente descreve alterações de visão, chamado de micropsia e macropsia o qual descreve que as coisas estão extremamente fora do padrão atingindo proporções “alucinantes”. Em um relato o paciente descreve carros do tamanho de brinquedos. Isso tudo sem nenhum LSD ou se quer um cigarrinho verde.

Comentário de Fernando Erick no Blog Wipms.

Alice demonstra ser uma criança muito reflexiva, embora continue inconsequente como qualquer criança.

Tudo bem dizer “BEBA-ME”, mas a sábia Alice não ia fazer aquilo apressadamente. “Não, eu vou olhar primeiro”, disse ela, “e ver se está marcado veneno ou não”; Alice já lera muitas lindas histórias sobre criancinhas queimadas ou engolidas por feras selvagens e outras coisas desagradáveis, tudo porque não tinham lembrado das regras simples que seus amigos falavam para elas. Por exemplo: um atiçador de lareira pode queimá-lo se você segurar por muito tempo, ou, se você cortar seu dedo muito fundo com uma faca, geralmente sangra; e ela nunca esquecera aquela: se você beber de uma garrafa que diz “veneno” é quase certo que isso irá prejudicá-lo, cedo ou tarde.
      Entretanto, esta garrafa não tinha gravado “veneno”, daí, Alice aventurou-se a experimentá-la e, achando o sabor muito gostoso (o conteúdo tinha, de fato, um tipo de mistura de torta de cereja, creme de ovos, leite e açúcar, abacaxi, peru assado, toffy e torradas quentes), ela bem rápido acabou com ele.

“Vamos, não há razão para chorar assim”, disse Alice. “Eu lhe aconselho deixar isso pra lá neste minuto.” Normalmente ela se dava bons conselhos (embora raramente os seguisse) […]

Alice também se entrega a questões existenciais, quando percebe as mudanças que aconteceram com ela:

“Puxa! Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?” Ah! esta é a grande confusão!”

E tem também o clássico diálogo de Alice com o Gato de Cheshire, bastante usado em palestras motivacionais, embora geralmente os palestrantes parem antes de terminar o parágrafo, dando a impressão que Alice (ou quem quer que esteja em seu lugar) seja uma completa imbecil:

“Gatinho de Cheshire”, começou, bem timidamente, pois não tinha certeza image se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas sorriu um pouco mais. “Acho que ele gostou”, pensou Alice, e continuou. “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
     “Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
     “Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.
     “Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.
    “…contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.
     “Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato, “se você caminhar bastante.”

Essa última parte, em negrito, que usualmente é ignorada pelos palestrantes, tem uma outra lição a ensinar, indo para além de “você precisa saber onde quer chegar”. Mesmo que você não saiba onde quer chegar, mas caminhar [se esforçar]  bastante, vai chegar em algum lugar. Então, não desista, ainda que no momento você não saiba para onde quer ir. Simplesmente continue caminhando.

O livro termina de um jeito inusitado. Após Alice acordar de seu sonho fantástico, conta tudo a sua irmã, que em seguida é quem dorme e começa a sonhar com tudo que Alice lhe contou, e “quase acreditou estar ela mesma no País das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria a ser a chata realidade de sempre…”

E o “felizes para sempre” dos contos de fadas tradicionais se transforma numa nova fórmula:

Finalmente, ela imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia em uma mulher adulta: e como ela iria manter, através da sua maturidade o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás; como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância e daqueles felizes dias de verão.

Anúncios

  1. Belo trabalho. É um dos meus livros preferidos, já li e reli várias vezes esse e o País dos Espelhos. O filme da Disney sei até os diálogos.

    Não vejo a hora de chegar a versão do Tim Burton

  2. Pingback: Resoluções (Literárias) de Ano Novo «

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s