O dia em que enfrentei um bando de ciganos – com as mãos limpas

É fato. Botei um monte de ciganos pra correr, sozinha, com autoridade que Deus me deu – Supernanny de adultos em ação. Mas a coisa foi séria, e merece reflexão.

Senta que lá vem a história, e é grande. Se cansar, fecha a página e pronto, mas não reclama não, tá?

Já tem uns 6 ou 7 anos. Eu dava aulas de bordado na igreja em que fazia parte, para mulheres da comunidade, durante 2 tardes por semana [sim, eu sou prendada, e houve um tempo em que eu não trabalhava nem estudava, na verdade foi logo depois de ter retirado um nódulo na tireóide, e fiquei um tempão de molho, aí aprendi a bordar e depois resolvi ensinar. Mas isso é outra história…].

Numa dessas tardes, chegou lá uma cigana com a filha, jovem e grávida, com a barriga na boca, já nos dias de ganhar neném. Só a visão de ciganos assusta, pela vestimenta, pelo jeito um tanto agressivo de falar, pelas imposições que eles trazem em si… e não nego que me assustei. Mas aquela mãe chegou tão decidida e foi tão clara, que não me deu alternativa. Ela queria que a gente “orasse pela filha dela, que estava já no tempo de parir, e elas estavam com medo”.

Com calma, perguntei o nome das duas, tentei conversar escondendo o susto e o nervoso, mas oramos pela futura mamãe, convidamos pra voltar à igreja no domingo, e elas foram embora mais calmas do que chegaram.

Abre parênteses:

Aqui em Ilhéus tem uma comunidade grande de ciganos, com pelo menos três acampamentos, e agregado a eles uma quantidade razoável de casas que foram sendo compradas. Os acampamentos são de barracas de lona quadradas, e com aquele monte de panelas brilhando ao sol. Um desses acampamentos era perto da igreja, e as aulas de bordado eram na área da frente, sombreada e aberta, por isso elas puderam chegar até nós, pois não podem entrar em em casa de “gajões” (não-ciganos) e muito menos em igrejas.

Fecha parênteses.

No grupo de mulheres que bordava, havia uma que era auxiliar de enfermagem na maternidade da cidade, e no dia seguinte, ela me ligou agoniada: “Vem correndo aqui no hospital, que a ciganinha ganhou neném e o menino – lindo – nasceu com lábio leporino, e tá uma confusão danada com a família.”

Fui correndo, meio sem saber o que fazer, mas a ida da mãe e da avó do menino na véspera até a igreja me soava como um pedido de ajuda, e eu atendi. O que vi, naquela enfermaria de hospital, me deixou arrasada/indignada/desesperada e vieram forças não sei de onde – mentira, sei sim, só pode ter sido de Deus – pra que eu fizesse o que fiz.

Além do bebê deitado no bercinho e a mãe acuada e em desespero, estavam no quarto uns 6 ou 7 homens e mais a avó do bebê, todos gritando ao mesmo tempo. A mãe e a avó choravam. A enfermeira me explicou: Para os ciganos, uma má-formação no bebê é inaceitável. Eles simplesmente rejeitam a criança. Não faz diferença quem sejam os pais, a comunidade decide que não quer a criança, e eles largam no hospital ou podem chegar ao extremo de matar o bebê defeituoso.

Gritos de “isso nunca aconteceu no nosso meio” se misturavam com gritos de “maldição, maldição!” e com o choro da mãe que não podia nem pegar seu bebê no colo. O pediatra já havia explicado que com dois meses podia ser feita uma primeira cirurgia e depois de um ano uma segunda, e a criança teria uma vida normal, mas eles não ouviam, ou não queriam ouvir.

Os homens estavam a ponto de pegar o bebê pra matar, quando eu cheguei e botei todos pra fora do quarto, inclusive a avó da criança, fechei a porta e me concentrei em acalmar a mãe, enquanto a segurança do hospital era chamada pra levar a ciganada pra fora.

Com calma, o pediatra e eu conseguimos convencer a mãe que o lábio leporino era algo contornável, e que o bebê precisava dela, de amor, de apoio e cuidado, e ela finalmente o pegou no colo, decidindo entrar na briga e enfrentar a comunidade pra defender o filho.

Naquele dia e em vários outros que se seguiam, pude ter mais contato com aquela menina-mãe, assustada e desorientada, que foi praticamente excluída da convivência com sua família e sua comunidade. Em nossas conversas, aprendi muito sobre a cultura e os costumes ciganos, coisas que me deixaram de queixo caído:

Mulher e nada é quase a mesma coisa. As meninas só podem ir À escola até à 3a. série, para aprender “a ler e fazer conta”, não precisa mais que isso, enquanto os meninos estudam até quando quiserem, geralmente vão até à 8a série do ensino fundamental.

Os casamentos continuam a ser arranjados, e geralmente dentro do mesmo grupo de ciganos. E a partir de quando são prometidos um ao outro, o casal não pode se encontrar a sós, e nem mesmo se falar, mesmo que sejam primos, e tenham tido uma convivência familiar até então. A moça não tem o direito de se negar a casar, e depois que casa, é praticamente uma empregada do marido. Cozinha, lava e passa o que ele quer, do jeito que ele quer. Não existe conversa sobre respeito e igualdade entre os gêneros, e fidelidade é algo que só funciona pro lado da mulher.

Uma vez deixei de dar carona pra essa jovem mãe (que passou a frequentar as reuniões da igreja com a mãe, desde que essas reuniões não fossem na igreja, sacomé? Nas casas das pessoas elas até podiam ir, na igreja, não.) porque meu filho adolescente estava no carro. Elas não podiam entrar no mesmo carro que um homem, se esse não fosse seu marido, ou um outro cigano da mesma comunidade.

Essa mesma mulher que não pode pegar carona comigo por causa de Abelzinho,  já havia pego o marido com outra(s), mas não podia dizer nada, aquilo era como tinha que ser, como podia ser.

Não vou nem chegar na parte do dinheiro emprestado a juros e nem dos cheques sem fundos comprados de factorings e cobrados violentamente dos emitentes. O que me horrorizou mesmo foram esses costumes do dia-a-dia que envolvem, mais do que qualquer coisa, o respeito à mulher como pessoa, e a triste submissão delas, desde a maneira de se vestir até o comportamento de capacho a que elas têm que se enquadrar.

Depois que deixei de trabalhar naquela igreja, perdi o contato com a moça, mas soube que o bebê foi operado, e estava normal, na medida do possível. Às vezes passo pela frente da casa dela e sinto vontade de parar e entrar, voltar a conversar com ela, saber como andam as coisas, mas tenho medo. Não por mim, mas por ela. Afinal de contas, ter uma amiga que não faz parte do grupo só faz com que ela seja ainda mais discriminada.

A vida de ciganos “ao vivo” é bem diferente do que foi mostrada há algum tempo atrás na novela de Glória Perez, Explode Coração. O meu coração quase que explode de verdade ao constatar esse tipo de coisa acontecendo em pleno século XXI.

– Post inspirado no post do Madruga em claro.

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  1. Caramba! O assunto era sério mesmo. Impressionante como sua memória trouxe de volta o caso com tantos detalhes e emoções. Ainda bem que vc conseguiu salvar a criança. Quanto aos costumes bizarros e às tradições machistas… acho que ainda existem comunidades piores. Por mais triste que isso seja…

    • É verdade, minha memória funciona bem pra caramba quando se trata de coisas que me marcaram…
      E o tratamento absurdo dado à mulher em muitas culturas é digno de ser vomitado do mundo. Agradeço a Deus por ter nascido aqui, e nessa época. Nem sei o que seria se essa alma livre que habita meu corpo tivesse que lutar pra exercer essa liberdade…

  2. Bel, que loucura, né?
    Em Paris, várias vezes fomos abordados por mulheres vestidas como ciganas. Elas abordavam todos mundo com a pergunta -Do you speak english? Sabíamos que elas queriam dinheiro ou fazer algum tipo de adivinhação, sei lá. Mas em sua maioria, estavam com os filhos no colo, ou puxados pelas mãos. Triste de ver.
    Isso aconteceu contigo também?
    Beijos!

    • Não… não vi ciganos na Europa, não. Eu fui avisada sobre isso, sobre mulheres ciganas e árabes, mas não as encontramos, não, graças a Deus. 😉

  3. Posso não postar uns tempos, mas deixar de ler vcs nunca 😉

    Enfim, achei interessante a história e, mais ainda, sua coragem – Super Mãe pondo moral em tudo, hein? hauhauhauhauha Na minha cidade, como a de quase todo mundo, existe sim uma comunidade de ciganos…a pouco tempo, por conta de uma urbanização na entrada da cidade, a prefeitura interviu e conseguiu contornar alguns costumes deles…não tenho contato, nem com eles, nem a comunidade que eles ocupam – por assim dizer. Justamente por isso, são tantos mitos, sobre violência, agressividade…o que torna complicado.

    O post é interessante pra gente conhecer um pouquinho mais…e bonito de ver, de saber, da coragem dessa mãe novinha, lutando pelo filho. Sério que, um filho muda tudo, né? Parece que sim…

    Saudade, super mãe. Muita.
    =*

  4. Realmente é estranho ver nem é preciso sair do Brasil pra ver essa diferenciação exacerbada entre homens e mulheres.

    Aqui em SP, no centro velho, temos que andar “tangendo” as ciganas que praticamente puxam sua mão pra “ler” e dizem as más línguas que costumam roubar anéis/alianças no momento da “leitura”.

  5. Você foi corajosa, hein? Parabéns!! 🙂
    E pensar que ainda existem muitas sociedades ultrapassadas neste mundo!
    Eu procuro evitar os ciganos, principalmente as ciganas, corro léguas quando as vejo no Mercado Modelo.
    Na Europa, só as vi em Sevilha, e a abordagem é praticamente a mesma, mas já esperta, “Yo no hablo español” e tchau!

    • Engraçado é que eu nunca tive medo. Ma assustei com a proximidade, mas não fiquei com medo.
      Talvez seja porque na nossa família tem muita brincadeira com a possibilidade de termos origem cigana… vá saber.
      Na Europa não vi mesmo.

      Bjo!

  6. “O meu coração quase que explode de verdade ao constatar esse tipo de coisa acontecendo em pleno século XXI.”

    E vai piorar.

    Como disse um amigo: “A imbecilidade pode não ser homogênea, mas é, certamente, hegemônica.”

    Jucemir

  7. Xiiiiiiiii, amiga,a coisa é feia e já me encontrei com alguns tb na Espanha. É assim mesmo como vc escreveu.

    Eles pararam no tempo. Pena que a Gloria Perez uma mulher tao vivida e esclarecida nao quis entrar no mérito da questao. seria um bom tema a ser discutido.

    Um bjao e saudades

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