O Evangelho Segundo Jesus Cristo – Valendo pelo Desafio Literário – Novembro

* O Evangelho Segundo Jesus Cristo (Saramago, Cia das Letras, 2008 – Presente de Jucemir). O livro já foi passear em Recife antes que eu lesse, e mês passado, quando estive lá catei o que me pertencia, e ei-lo de volta. A dedicatória diz assim:

“Rio de Janeiro, num dia qualquer de primavera.

Este Saramago é uma doce provocação à tua fé evangélica. Espero que você e o José – ateu e comuna – não obstante as discordâncias, se tornem bons amigos.

Jucemir

(A primeira dedicatória foi censurada…)

Li com espírito aberto e mente tranquila. Saramago dizia-se ateu – o que somente ele poderia experimentar, isso não vem ao caso – e escreveu bastante sobre personagens bíblicos – cristãos, então.  Mas nunca se arvorou em dizer que escrevia sobre religião. Escreveu romances, e foi assim que li. Um romance. Tal como A viagem do Elefante ou Ensaio sobre a Cegueira. Nesses romances, é claro que o autor deixa escapar seus pensamentos particulares e suas crenças pessoais. Direito dele. Eu, como leitora, leio, mas não preciso me desfazer dos meus pensamentos e crenças para isso. Direito meu.

Comecei a escrever este post estando na metade do livro, deveria tê-lo feito do início, mas… agora é tarde, Inês é morta. Começo do meio, então.

Fiquei emocionada com a narrativa da morte de José, pai humano de Jesus. Crucificado, inocente, aos 33 anos. Obviamente uma referência prévia à morte do Filho. Mas o pensamento sobre as lágrimas e o luto é maior do que a referência:

Entre o Rio Jordão e o mar, choram as viúvas e os órfãos, é um antigo costume seu, para isso mesmo é que são viúvas e órfãos, para chorarem, depois é só esperarmos o tempo de os meninos crescerem e irem à guerra nova, outras viúvas e outros órfãos virão tomar-lhes a vez, e se entretanto mudaram as modas, se o luto, de branco, passou a ser negro, ou vice-versa, se sobre os cabelos, que antes eram arrancados, se põe agora uma mantilha bordada, as lágrimas, quando sentidas, são as mesmas.

Foi ontem, e é o mesmo que dizermos Foi há mil anos, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar.

*******

Continuando, mais de dois meses depois de começar a ler, e mais de um mês depois de terminar (terminei durante a viagem a Sergipe, em setembro). Dessa vez não será a resenha do livro, mas a minha opinião sobre algo que acredito: o Sagrado.

Então, apesar de tudo que já coloquei acima, li de espírito aberto, como já li vários outros livros que romanceiam a história bíblica (lembro rapidamente de A Tenda Vermelha), e contam  de maneira detalhada aspectos da vida que bem poderiam ter acontecido, sem desmerecer a fé daqueles que têm a Bíblia como livro Sagrado.

E vou dizer que o que me incomodou de verdade não foi a maneira como Saramago tratou a pessoa de Jesus-homem, mas como tratou o Plano de Deus mandando seu Filho nascer como homem.  Não me importei de ler detalhes sobre uma suposta vida amorosa (e sexual) de Jesus com Maria Madalena, nem sobre as dores físicas de seu corpo. Mas a parte espiritual, o que é mais sagrado, foi não somente desconsiderada, mas deturpada de maneira a ofender mesmo. Ofender, digo, a mim.

No livro, Jesus além de ser filho carnal de José, não faz a mínima idéia de que é Filho de Deus – e quando Deus lhe diz isso ele duvida. Saramago retrata Jesus como uma pessoa medrosa, insegura e completamente confusa.  Foi “treinado” como pastor de ovelhas pelo próprio Diabo travestido de pastor e que discute com Deus em pé de igualdade. A figura  do pastor é uma das mais belas usadas pelos escritores bíblicos, pois demonstra o cuidado do pastor com as ovelhas, o sacrifício de dormir ao relento para protegê-las, de buscar o pasto e a água limpa para sua sobrevivência, de desembaraçar sua lá dos espinhos do caminho… e ver tudo isso se transformar num treinamento diabólico… pra mim, passou dos limites.

A Bíblia diz que Jesus deixou a Glória do Pai, com um propósito, e que Ele tinha total conhecimento desse propósito – a sua morte e ressurreição, para cumprir a Lei e possibilitar a religação do homem a Deus. Essa entrega – como a própria palavra diz – foi voluntária. “A si mesmo se entregou, tomando a forma de homem. E sendo achado na forma de homem, a si mesmo se humilhou, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”, diz  S. Paulo na carta à Igreja em Filipos. Mostrar Jesus como um joguete – ainda que nas mãos do próprio Deus – desmerece a fé cristã, a minha, portanto.

Tenho por norma, na vida, respeitar o Sagrado, seja ele qual for. Se é Sagrado para alguém, merece meu respeito, ainda que não seja sagrado pra mim. Ainda que eu não concorde, que não creia, ou até mesmo que ache errado. Por isso não gosto de piadas com padres, freiras, judeus, rabinos ou seja lá que função tenha a pessoa que funciona como sacerdote em qualquer religião,  não aceito desrespeito de quem coloca apelidos pejorativos em praticantes de qualquer credo, não recrimino quem por sua opção religiosa tem costumes diferentes dos meus.

Não estou aqui reclamando de Saramago em si, mesmo porque ele não vai ler o que estou escrevendo e se lesse também não faria diferença alguma. Não estou também reclamando de quem me deu o livro, ainda que tenha sido mesmo como provocação. Estou reclamando é, no geral, do desrespeito, da desconsideração ao Sagrado, que acontece frequentemente em nome da liberdade de expressão, por pessoas que se esquecem que junto da liberdade de expressão está a liberdade de crença e esquecem também aquela máxima que diz que meu direito só vai até onde começa o do outro.

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  1. Bel querida, desculpa a ausência. Gostei de voltar bem no meio de um post polêmico. Houve um tempo em que eu acreditava que algumas coisas, como religião, não deveriam ser discutidas. Hj penso que discutir coisas tão importantes é algo muito construtivo e todos só têm a ganhar com isso. Desde que, claro, a discussão seja em alto nível e com respeito. Gosto do jeito com que vc defende suas crenças e mostra respeito pelas alheias. Well done!!

  2. Anabel, acredito que quaisquer conjunto de idéias e práticas – religiões inclusive – podem e devem passar pelo crivo do embate social. Nada deve ser infenso ao contraditório, sejam quais forem as modalidades que este assuma – com exceção da violência física. Assim não fosse, continuaríamos sujeitos a proibições medievais – ainda vigentes em boa parte do mundo muçulmano.
    (Desconfio, no entanto, que – havendo condições favoráveis- a hierofania é o primeiro passo para a teocracia. É só uma questão de números de adeptos.)
    As religiões não são eventos privados, à margem do jogo de forças inerente às sociedades. São ideologias (e instituições) como quaisquer outras e, historicamente, têm disputado a gestão do social pelo discurso e pela força – aliadas ou não a outras instâncias circunstanciais.
    Por exemplo, a atividade missionária – seja católica ou evangélica – coleciona inúmeros casos de violência que vão muito além de um eufêmico desmerecimento do sagrado alheio. Como achas que se deu (e se dá) a conversão ao cristianismo das sociedades tribais sob domínio do cristão europeu e de seus herdeiros? A desqualificação do sagrado alheio foi, e ainda é, premissa e justificação para violências tanto simbólicas quanto físicas.
    Fico a me perguntar se, no essencial, não concordarias com o governo português quanto a vetar “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” numa lista de romances para concorrer a um prêmio literário europeu.
    No mais, inda bem que não te mandei “O Estranho Caminho de Santiago” – também conhecido como “Via Láctea” – de Buñuel e nem te sugeri assistir inserções de Pat Condell no iutíubi…
    …Corria o risco de perder a amiga.
    Deixo-te com uma longa citação de “O Sagrado e o Profano”, de Mircea Eliade, a qual subscrevo: “O homem moderno a-religioso assume uma nova situação existencial: reconhece-se como o único sujeito e agente da História e rejeita todo apelo à transcendência. Em outras palavras, não aceita nenhum modelo de humanidade fora da condição humana, tal como ela se revela nas diversas situações históricas. O homem faz-se a si próprio, e só consegue fazer-se completamente na medida em que se dessacraliza e dessacraliza o mundo. O sagrado é o obstáculo por excelência à sua liberdade. O homem só se tornará ele próprio quando estiver radicalmente desmistificado. Só será verdadeiramente livre quando tiver matado o último Deus.”
    Mais adiante, M. Eliade faz alguns reparos a esse tipo ideal, porém a definição me parece bastante apropriada para aquilo que norteia minha orientação nesses assuntos.
    Fica tranquila, não te mandarei o livro em questão…
    …Fiquemos nas fotografias.

    Jucemir

    P.S.: “Talvez pela maneira como fui criada, onde dançar tinha o mesmo peso de fumar ou beber (isto é, absolutamente fora de questão)…”

    O que define o Maléfico é o Sagrado.

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