"A dor é de quem tem"

Ouça enquanto lê:

Não, Marido não me deixou, é só uma reflexão puramente teórica sobre as dores interiores, se é que na vida tem teoria.

Quem me lê há mais tempo conhece a minha Teoria da Dor da Hora, que resumidamente diz que a pior dor que a gente sente é a dor de agora. Depois que passa, ela deixa de ser a maior, e a maior sempre será a dor da hora.

E não por acaso, só pode saber o que a gente está sentindo, quem já sentiu igual. Não dá pra falar de enxaqueca com quem só tem dor-de-cabeça-básica. Ou de coisas de grávida com quem ainda não foi mãe. E nem de tentativas de engravidar e aborto espontâneo com quem nunca teve filho. Não tem como falar o que é uma doença grave na família ou perda de pai-mãe-filho com quem tem todos os seus ainda por perto e saudáveis. Nem de uma separação dolorida, traição, divórcio complicado com quem é bem casada com o primeiro marido. Por mais empatia que se tenha ou busque ter, você só SABE se um dia já sentiu aquilo. E não discuta, porque quem está falando aqui sofre na pele o fato de ser filha única e não fazer idéia do que é ter um irmão pra brigar/amar/dividir/disputar… Eu não entendo NADA de ser irmã, nunca fui.

Da mesma maneira, as reações às situações são diferentes pra cada pessoa. Alguns, como eu, se sentem melhor quando repartem o problema, quando contam aos quatro ventos, ao éter e até mesmo na internet o que está incomodando. Outros curtem suas dores e seus problemas calados, pensando, refletindo, ruminando… sozinhos, sem dividir a carga nem com quem lhe é mais caro, pensando em proteger, poupar, seja lá o que for.

Como disse, eu não sou assim, de aguentar problema calada. Mas, e quando o problema não é só meu? Quando envolve outras pessoas, e essas pessoas têm outra opinião sobre como encarar o tal problema? É duro.

Estou numa sinuca de bico dessas, com problemas que são plenamente meus, mas não somente meus. E, como lidar com esse lance de expor, falar, até onde falar, como fazer as pessoas entenderem os limites de interferência na situação, mesmo as pessoas mais queridas? Até onde tenho o direito de proteger, decidir quem sabe ou não sabe, e o quanto sabe? A dor é de quem tem, a dor e minha, e de mais ninguém, mesmo? Sério? Não sei. Estou indo na base do feeling, repartindo o problema às vezes com as pessoas menos próximas, que não têm o poder de interferir, digamos assim. E protegendo os mais próximos dos detalhes mais duros e cruéis, afinal de contas, cada um tem seus problemas pra resolver e nem sempre se está pronto para receber mais um fardo pesado nas costas. E me pergunto ainda: A quem estou “protegendo”, quando não compartilho a parte mais pesada da situação? A mim? Aos outros envolvidos? A quem é poupado de saber detalhes? A ninguém?

Dessa vez eu preferia me fechar em copas, e aguentar o tranco sozinha, quero dizer, não sozinha, sozinha, mas internamente, na família restrita. Porque é difícil dizer a quem vem visitar: visita quebra a rotina e atrapalha, querendo ajudar. Queria poder dizer, na boa: orem, mas não visitem. Estejam atentos, mas sem interferir. Espero que não se chateiem, mas entendam. Afinal de contas, são amigos, são queridos… podem entender, não podem? Ou não, como saber?… Como saber se estou agindo certo, se é pra ser assim, ou de outra maneira?

Enfim, quem não se sentir à vontade pra comentar, neste post, relaxe. Ou trate a coisa somente na teoria, como eu tentei fazer, e não sei se consegui.

Bom sábado de sol pra vocês!

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  1. Sabe, li seu texto de manhã e fiquei pensando tanto nele. Tanto, tanto.

    É que a vida sempre doeu pra mim, de tanto jeito, e em muitas coisas concordo com você. A dor dos outros é algo que podemos imaginar, supor, empatizar… Observar. Mas só quando a sentimos é que a conhecemos bem. É por isso que, quando o Beto morreu ( uma das maiores dores da minha vida ), por mais que eu tenha visto tanta gente sofrendo comigo, por me ver mal, e por mais que isso tenha me ajudado a sentir querida e confortada… Quem soube me consolar de verdade e me ensinar o que fazer com aquilo foram duas ou três pessoas que passaram por situação parecida. Elas sabiam exatamente o que dizer, quando dizer, como dizer, e principalmente, sabiam quando calar. E quando eu olhava pra elas, e as via vivas depois do furacão, eu tinha esperança pra continuar e saber que um dia eu ia voltar a ficar de pé também.

    A música é linda, uma das minhas preferidas. Mas acho que ela diz que a dor é de quem tem quando dor é tudo que resta. Quando não há mais nada a fazer, a esperar, a consertar. Aí, a dor vira aquilo que a gente coloca mesmo como um troféu… Como aquilo que aquece sem dar calor, como ela diz, como a única coisa que restou depois de tudo. A dor sem esperança é a mais conformada e a mais triste que tem.

    Mas quando a dor da gente, ou de alguém perto da gente, é aquela dor de luta, dor de aprendizado, dor de processo… Dor dessas que a gente sente todos os dias, em maior ou menor grau, simplesmente por estar pagando o preço de estar vivo… Então penso que é melhor, como diz o mestre Gilberto Gil, ajudar aquela dor a encontrar o seu lugar. E a dor dividida realmente fica mais leve.

    Todos sofremos. Nossas dores costumam ser parecidas, e por isso é tão importante pra nós saber dos problemas alheios… Eles nos servem de lição e nos ajudam a elaborar os nossos. Todo mundo tem vergonha de sofrer, mas se partilhássemos mais, veríamos que não há motivo pra isso… A dor faz parte da vida. E a alegria, também. Fardo dividido é fardo mais leve. Pra quem desabafa e pra quem ouve.

    Aff, que comentário enorme. É que o texto realmente me deixou reflexiva. rs

    Beijo, minha linda! E força na peruca aí.

    • Entendi, Ká. E tenho tentado dividir o fardo com quem pode entender… E quando sabemos dos problemas alheios, os nossos parecem diminuir. #fato.

      Beijo, querida, e pode fazer comentários enormes assim, eu adoro!!!

  2. Fiquei com a sensação de que já tem uns dias que vc quer falar e não sabe se fala, se deve falar, se pode falar – desde o post do anônimo. E, entendo completamente nesse o que vc quis dizer sobre entender ou não o que o outro está passando – tem que ter vivido, ao menos parecido, também. Ao mesmo tempo, lembrei de uma outra frase, clichê de orkut: só o dono da dor sabe o quanto dói.

    Como não sei do que se trata – embora apenas imagine – não posso aconselhar se vc diz ou não diz. Acredito que vc deve falar até onde (e com quem) seja bom pra vc, ao menos pra aliviar o fardo – pra que carregar tudo sozinha, dona Bel? Tentar dividir, conversar, com quem está por perto, e com quem já possa ter vivido algo semelhante, pode ser bom – se não agregar nada, tb não vai te prejudicar, acredito. Nem você, nem a situação.

    Respire. E não cobre tanto de você seguir adiante ‘só você’. Vc é forte, e já sabe disso – não precisa provar pra mais ninguém.

    :*

    • Não estou carregando sozinha não, podeixá. Marido tem sido um apoio incrível, e mais algumas pessoas também. Mas ó, minha força tá se acabando. Tô cansada, e a batalha não tá nem perto de terminar. 😉

  3. Ia dizer o mesmo que a amiga Intense aí em cima… pelos outros posts deu pra perceber que tinha algo entalado. O caso é que mesmo com esse post, parece que o caroço continua na garganta e vc não tem certeza se o melhor é engolir ou cuspir. Sabedoria pra aconselhar eu não tenho, mas minhas orelhas são bem grandes pra ouvir (e meus olhos pra ler). Se quiser desafogar com alguém que tá bem longe e nem tem como palpitar, tô aqui a qualquer hora. Boa sorte com tudo, querida! bjo

  4. As vezes eu sou muito do tipo que quer resolver tudo sozinha… e penso que o problema/dor é meu e eu tenho que ser forte e saber lidar sozinha com isso.
    Muita gente diz que não é bem assim, e que nem sempre resolver tudo sozinha é bom, e que compartilhar com os mais próximos ou chegados e de confiança é bom, desde que eles respeite o limite de ajudar, sem interferir!
    Mas cada um sabe do que é seu… e se esse “seu” pode ser tbm de outros.
    Compartilhar isso, só se achar que realmente vale a pena!

    Beijo

  5. É meio óbvio o que vou dizer, mas a gente só saberá se está agindo certo depois que agir. E se não for? Bom, vc tentou, né? Com as melhores intenções.
    Meu sábado foi sem sol e minha noite será chuvosa e abafada.
    Seria bom estar aí com vc pra gente falar de nada, né?

  6. Ilações:
    a coisa está preta, não dá pra botar as cartas na mesa, daí fechar-se em copas – sem nenhum blefe…
    …Mas não estamos aqui pra jogar elêusis ou bridgemente adivinhar-lhe a mão. Somos todos parceiros discretos , solidários e carinhosos.
    ………………………………………….
    “Bom sábado de sol pra vocês!”

    Já que mencionaste:

    “Ei, dor!
    Eu não te escuto mais
    Você não me leva a nada
    Ei, medo!
    Eu não te escuto mais
    Você não me leva a nada…
    “E se quiser saber
    Pra onde eu vou
    Pra onde tenha Sol
    É pra lá que eu vou… “

    Parece tão fácil.(Mas não é não.)

    Jucemir

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