A moça-que-trabalha-aqui-em-casa

Sabe quando um assunto está gritando pra ser tratado aqui no blog? Primeiro foi semana passada, quando mamys recebeu  a visita de Maria, a "Minha Maria", que trabalhou lá em casa (eu não morava aqui) durante 7 anos, enquanto os meninos ainda eram bem pequenos, e ela fazia todos os dengos e gostos deles (e do resto da família também). Pensei em escrever sobre a continuidade da nossa relação, mesmo depois de ela ter saído lá de casa. [O marido dela não quis mais que ela trabalhasse, vá entender.]

Depois Michela (a moça-que-trabalha-aqui-em-casa atualmente) teve um probleminha de saúde e eu achei a coisa mais natural do mundo eu cuidar dela, já que todos os dias ela cuida de mim. Quis falar sobre isso, mas estava naquela fase do  pufff…

Aí veio o Post da Aline Monteiro sobre a Aline (moça-que-trabalha-na-casa-dela), e quando comentei lá, desejei mesmo escrever sobre isso, mas… pufff. Aliás, é da Aline Monteiro o direito autoral de chamar "a-moça-que-trabalha-lá-em-casa. Eu chamo de empregada, sem problema, mesmo porque sempre encarei a palavra "empregada" como algo positivo, afinal de contas, negativo é "desempregada", ou não é?

Por fim, foi a própria Michela que hoje me chamou de um jeito que não deu pra deixar passar o assunto. Finda a introdução, vamos ao desenvolvimento do assunto, de fato.

Eu sempre convivi com empregadas domésticas, desde que era criança. Mas nunca me senti "a patroinha" ou a "Sinhá Moça", com tudo a seus pés. Sempre entendi que a empregada doméstica estava ali para fazer o trabalho que minha mãe [e eu] não gostava[mos] de fazer, e que sem ela a coisa ficava preta. E fui ensinada a tratar bem, com delicadeza e respeito, pedir sempre "por favor", agradecer por tudo que ela fazia, desprezando o fato de que ela fazia como trabalho, mas como na verdade era um escape para que eu não fizesse o trabalho… vamos agradecer, e de coração.

Depois que tive minha própria casa, tive a sorte de ter poucas empregadas, que ficaram por muito tempo comigo. Pela ordem:

Nalva, que ficou 3 anos, e que eu "dei" pra Rosane, quando ela foi fazer doutorado na Inglaterra, e precisava de uma babá pro filhinho, com apenas 3 meses. Resumo da ópera: Rosane voltou Doutora depois de 4 anos, e Nalva ficou lá, hoje mora na Suíça e casou com um italiano… se vacilar, fala mais idiomas do que eu. Viva ela!

Wilma, que ficou 2 anos, e saiu porque endoidou afetivamente, largou o marido e se mandou pro Rio ou São Paulo, não sei. Enfim, ela que sabe da vida dela.

Marlene, que ficou 4 anos, e foi a única que me deu 1 x 0, porque resolvia fazer a feira dentro da minha despensa… e pela primeira vez eu me vi tendo que despedir alguém e dizer o motivo. Ela, a princípio, negou, mas depois quando eu pedi pra ela abrir a bolsa e lá estavam um quilo de arroz (no saco, cru) e um pacote de biscoito recheado, teve que admitir. Foi horrível, graças a Deus foi a primeira vez e a última.

Aí veio Maria. Caída do céu. Um tempero delicioso, aprendia receitas só de ver alguém fazer uma única vez. Completamente analfabeta, gerava inúmeras situações constrangedoras – e até mesmo engraçadas, depois que passava, óbvio. Maria frequentava a mesma igreja que eu, e foi lá que começou: -Maria…  -Que Maria? -Maria de Anabel. E a partir daí, até ela própria, quando falava com alguém, dizia: "É Maria, de Anabel". Mas aí teve o marido… e Maria se foi de minha casa, mas não de minha vida. Telefona em todos os aniversários, se alegra e sofre conosco, era amiga e continuou amiga pra sempre.

Quando fiquei sem Minha Maria, minhas amigas tentaram me ajudar, e uma delas ia se mudar da cidade e perguntou se eu não queria conversar com a empregada dela, super super maravilhosa. Tentei, mas apareceu um outro emprego de verão, numa pousada e a moça preferiu esse. E… me encaminhou a irmã, que nunca havia trabalhado como doméstica, mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara, topei, e acertei com ela.

Vera. Gente boa de tudo! Mas o primeiro almoço… argh, um horror. Meu ex-marido decretou: Não dá, é terrível. Mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara… pedi a três das minhas melhores amigas e excelentes cozinheiras, que viessem dar umas aulinhas de culinária pra Vera. Bingo! Vera se tornou uma cozinheira MARA. Ao contrário da Minha Maria, Vera tinha feito o 2º grau, e quando precisava encontrar um livro, bastava dizer o nome, em vez de descrever a aparência do livro, como fazia com Maria. Vera se tornou "Santa Vera", que não me deixava esquecer compromissos, horários de dentista e médico, fazia a lista de compras, estava disponível para trocar qualquer dia por um domingo em que eu tivesse visitas, e o melhor de tudo: Santa Vera se tornou minha amiga. Aguentamos juntas as dificuldades com nossos casamentos, trocamos confidências, conselhos… até que precisei dar a ela um conselho que foi bom pra ela mas não-tão-bom pra mim: Vá atrás de seu marido (que estava trabalhando em São Paulo). Vera se foi na mesma época em que eu comecei a trabalhar o dia todo na UESC, fiquei sem filhos em casa e por isso mesmo senti menos a falta dela, do que sentiria se estivesse em casa.

Aí casei de novo, e alguns meses depois, entrou na minha vida "Santa Michela". Indicada pela "Santa Claudete" (a moça-que-trabalha-com-minha-mãe), Michela chegou com uma apresentação tão boa, que Marido disse: "Ela não vai demorar aqui, é boa demais pra esse trabalho de doméstica". Mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara… decidi que era melhor tentar, se ela ficasse pouco tempo e saísse pra um emprego melhor pra ela, Viva!

Santa Michela me saiu melhor que a encomenda.  Criativa, cuidadosa, sabe onde colocar cada coisa, cuida da minha casa "como se fosse a dela", é bem humorada, até vive me vigiando nas dietas (e ela mesmo me sabota, porque faz cada sobremesa gostosa…), encontra livros, documentos, e qualquer coisa que eu "perca" dentro de casa… e tem se tornado minha amiga também. Hoje ela me disse que é feliz trabalhando aqui, e que mesmo doente, ela prefere vir trabalhar, porque sabe que aqui encontra uma "mãe-troa" que cuida dela. Fiquei emocionada. [Não que eu tenha idade pra ser mãe dela, porque a diferença entre nós é de 12 anos, e eu menstruei com 13, quase 14, então… é linguagem figurada, mesmo.] Mas gostei muito de saber que em 8 meses que ela trabalha aqui já temos  esse relacionamento bom, de respeito e de amizade.

Fico muito triste quando vejo pessoas [patroas] que tratam as empregadas com desrespeito, com desdém, falando delas como se elas não estivessem ouvindo… só reclamando, só dizendo que não sabem fazer as coisas… Poxa, se ela não faz direito, ou ensina a fazer, ou dispensa. Viver num ambiente hostil ninguém merece. Também não gosto de ver empregadas que não reconhecem a autoridade da patroa, e que só fazem o que querem. Comigo não rola. Eu não brigo. Mas ou faz do meu jeito, ou tchau. Do mesmo jeito que se eu não estiver satisfeita num emprego, não fico falando mal: peço as contas e vou encontrar outra coisa pra fazer.

Santa Michela merece coisa melhor do que um emprego de empregada doméstica, merece, sim. Mas esse emprego (na minha casa) dá a ela condições de ter tempo para a filhinha pequena, de trocar dias quando necessário, e de estar num ambiente tranquilo e "leve", como ela mesma diz. Então… Viva nós duas!

Anúncios

  1. Lembro das suas histórias com Vera, mas Michela, que conheço agora bem mais de perto, realmente é um doce. Tenho certeza que ela tem um futuro promissor e, graças a ela, eu irei progredir na cozinha. Já estou providenciando os ingrediente e, quando a receita der certo, vocês lerão no meu blog o primeiro milagre da Santa Michela (fazer Favuca cozinhar).

  2. Bel!
    Eu tenho ótimas histórias das moças-que-trabalharam-lá-em-casa. Pessoas que saíram de lá pra uma vida melhor, aprenderam a ler lá em casa, estudaram, foram até pra Europa, como a sua Nalva.
    A minha primeira experiência foi com a Nininha, que começou como cozinheira, na casa da vovó, e acabou como babá das quatro crianças doidas que corriam por todo lado. Ela é uma que tem espaço garantido no meu coração.
    Eu acredito que a gente deva tratar os outros como eles merecem ser tratados. Se uma pessoa faz o trabalho pesado, ela deve receber todo o crédito. Eu não tenho problema em fazer o trabalho pesado, mas agradeço muito se alguém fizer por mim. E a minha Aline tá sendo ótima. Um carinho com a vovó que tá me deixando apaixonada!
    Bjo!

  3. Não tenho experiências com moças-que-trabalham-la-em-casa, tenho diarista que vai só limpar e pronto e muito de vez em quando . Mas tem tanto tempo que só tenho uma que nesses 5 anos ela engravidou, deixou a irmã no lugar, depois a irmã engravidou e agora ela voltou para minhas faxinas de tempos em tempos… Faz o “feijão com arroz” direitinho, as vezes esquece algo, mas nem ligo, porque não sei onde achar outra que eu possa largar la dentro de casa sozinha.
    Mas preciso registrar que um dia ela conseguiu esconder um tapete, isso mesmo um TAPETE! Tive que ligar para ela para saber onde ela tinha enfiado o TAPETE!

  4. Na minha casa sempre teve pessoas para ajudar (graças a Deus!) e inclusive a que ficou mais tempo lá em casa (cerca de mais de 5 anos) é quase da minha idade (1 ano a mais só) e hoje estuda pedagogia num universidade pública por muito incentivo da minha mãe, que a considera mesmo como uma filha. A Leda é uma fofa, super querida por nós e também nos quer muito bem. A mãe e a irmã mais velha dela tbm trabalharam lá em casa, nós somos queridos pela família toda. Então, é assim, não tem como conviver com as pessoas sem criar laços, mesmo que estas pessoas estejam prestando serviços pra vc. E respeito cabe em qualquer lugar, não é mesmo?

    Bjo bjo, Bel

  5. Ah sim, o que eu queria dizer mesmo, nem disse!
    Que dou o maior valor para essa galera dos serviços gerais(faxineira, copeira, lancheira…), porque é um trabalho pesado, que a gente não quer fazer.
    Pago bem, sem reclamar, lá no trabalho dou bom dia, boa tarde, boa noite, de vez em quando ainda bato um papo com a galera. Porque não é fácil e a maioria faz com sorriso aberto.

  6. Oi Bel, que lindo post em homenagem as suas ajudantes no decorrer da tua vida. essa mesma sorte de ter alguém que me ajudasse eu nunca tive. mamae, nao podia pagar uma e ela nos ensinou a fazer tudo. Gracas a Deus por isso, porque aqui na Alemanha uma empregada custa os olhos da cara, eu nao posso pagar uma. Entao, a vida já foi me ensinando a fazer, rs. Mas tinha amigas que contavam cada coisa das suas empregadas. Vê-las por este lado tao positivo é muito bom, até porque porque tem muita gente fazendo das empregadas de gato e sapato e principalmente os filhos mimadinhos, onde eles podem tudo.

    Adorei o texto!

    Um bjao

  7. Caramba! Viajei junto nessa linha do tempo das empregadas. Que bela história. Uma das melhores que já li por aqui. Adoro esse ambiente de respeito. Parabéns por todas as amizades.
    bjo grande

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s