Vomitando pra ver se alivia

Desculpem, este é mais um post-vômito, se você tem o estômago fraco, clique logo no xis ali em cima e acabe com a história. Vou avisando logo que vou tentar travar os comentários neste post, se eu não conseguir, respeitem minha vontade, e, por gentileza, não me mandem e-mail perguntando o que está acontecendo. Tudo que eu sei estou colocando aqui.

Já faz alguns dias que estou azeda, e não falo do estômago somente. Está tudo com aquela cor verde azeda, se vocês não sabem, melhor ficar sem saber que sensação é essa.

Sinto falta da minha vida, de fazer coisas que eu gosto, de trabalhar e ver o dinheiro entrar, de curtir pessoas de quem eu gosto, e de me sentir amada. Pode ser que tudo isso que estou sentindo seja só mesmo “sensação”, mas juro que eu queria poder fazer alguma coisa prática e palpável pra mudar isso.  A sensação (e vou repetir essa palavra 1488 vezes, para que fique bem claro que é O QUE EU SINTO, e que não precisa necessariamente ter uma RAZÃO para sentir) é de que preciso fugir, seja viajando, dormindo ou gastando tempo num joguinho besta no facebook.

Não estou satisfeita, tudo me irrita, não tenho fome e ao mesmo tempo como normalmente – ou mais do que deveria (vá entender…). ACHO que irrito todos com quem tenho contato, estou “dando choque” por todos os lados, parece que meus poros exalam eletricidade.

Morro de sono o dia inteiro, e quando deito pra dormir não desligo. [Para isso, tem a explicação do DDA, da falta de  (insira aqui o nome do hormônio que eu me esqueci) no córtex frontal, que faz o cérebro ficar ligado em 440w 24h por dia ou quase isso – mas não me convence.]

PARECE que a realidade que eu vejo não é a mesma que todo mundo vê, em qualquer situação. Minhas palavras caem num poço sem fundo ou são levadas pelo vento sem que qualquer pessoa dê a devida importância – ou a importância que eu gostaria. SINTO que as minhas prioridades não são as prioridades de ninguém, ou pelo menos não de quem me importa em alguma instância.

Tenho muitos desejos, sonhos, projetos, mas todos ficam naquela fase de “porta entreaberta” sem que eu consiga enpurrá-la de vez e meter o pé, seja o direito ou o esquerdo, e começar a caminhar por um caminho que leve a algum lugar. Sinto-me amarrada, empurrada pra um caminho que não é o meu, mas que tenho a SENSAÇÃO de que é o que eu DEVO seguir.

Não quero ver ninguém, nem conversar – telefone me enoja, vocês não fazem idéia – e ao mesmo tempo acho ruim ficar sozinha.  Quero me enfiar num buraco onde não veja nada, e ao mesmo tempo tenho angústia de escuro. Quero sair de casa, ver gente, ver o sol, o céu e o mar, e ao mesmo tempo não quero nem trocar a roupa e calçar sapato pra sair. Quero chutar o balde, mas nem tem balde pra chutar. Quero chorar, mas só consigo ficar com os olhos pesados e aquela sensação de farpas invisíveis que só sumiria com uma torrente bem forte do líquido salgado.

Acabei de me lembrar de uma frase que Jady me disse outro dia: Pra todas as situações, o remédio é água salgada, seja do mar, das lágrimas ou do suor. Infelizmente meu trabalho não gera suor e eu não tenho estrutura pra academia. Como não consigo chorar, restaria o mar, mas tem chovido tanto que ele está marrom e sujo, opção inválida. E agora, José? (Ainda bem que aqui não é o twitter, senão o @josereal viria me responder com alguma gracinha.

Por favor, ninguém se sinta ofendido com este meu desabafo, como naquela propaganda de carro, “o problema não é com você, é comigo”.

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  1. Eu acho que já mandei “Tabacaria” em algum comentário…
    …Mas, tudo bem, eu também acho que já me de parei com esse teu vômito.
    Da pouca poesia que eu li até hoje, “Tabacaria” é a minha preferida.
    Porém, é necessário não levar demasiadamente a sério o ritmo das palavras – por mais feitiço que contenham – e lançar mão do mesmo FP: “A metafísica é uma consequência de estar mal-disposto”.
    Digamos, em linguagem nem um pouco poética, que esse mal estar pode ser prosaica consequência de uma moqueca que desceu atravessada.
    … Como dizia o próprio Fernando adivinhando na última flor do Lácio o que se passava nas entranhas anglosaxônicas do Edgar : “É o vento, e nada mais”.
    Se não entendeste esta última referência, é porque lês ainda menos poesia do que eu.
    Relaxa, minha neguinha.Quem aparece por aqui também te ama – é claro, não tanto quanto Mão de Veludo, mas dá pro gasto.

    TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim…
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.
    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
    Álvaro de Campos, 15-1-1928

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