Meme pro ano inteiro – Semana 11

Meus brinquedos preferidos na infância eram:

  • Soldado e Ladrão (à noite, na rua, sob os olhares das tias, com o monte de primos que moravam no mesmo pedaço)
  • Brincar de Roda (depois do culto, na praça da prefeitura)
  • Baleado (à tarde, depois de fazer as tarefas da escola, com os primos e os colegas de banca)
  • Pular corda (eu era fera!)
  • Cabelereiro (eu sempre era a cliente rica, adorava que mexessem no meu cabelo!)
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Sessão de vídeo

Hoje ainda não é sexta, e não vou ao cinema, mas que tal ver uns vídeos legais?

O primeiro, vi no blog da Caminhante, junto com um texto sério sobre teste de coral (do qual eu entendo muito bem). Mas só “vi”, não “assisti” o vídeo. Mas foi no Janela Colonial, com o título “Sessão de arremessos”, visto via Google Reader, que ele apareceu novamente, e a legenda: “vi no Blog da Jady e fiquei #tensa”.  Aí fui assistir de fato, porque leio assiduamente o blog da Jady e não  vi por lá nada que tivesse me deixado tensa, recentemente. Aí… Confiram vocês.

Rauuulaaa!

Outro é a nova propaganda da coca-cola, um encanto. Precisa dizer que fiquei emocionada? Pois é, eu, que estou em processo de desintoxicação, vou aqui fazer propaganda da dita cuja pretinha (deliciosa!):

Razões para acreditar

E outro pra emocionar: Vou-me embora pro passado,  colocado pela Jady no comentário do post sobre Pasárgada. Marido ficou encantado… eu confesso que algumas coisas não fazem parte do MEU passado, mas só algumas. Jessier Quirino, de Campina Grande – PB, um artista e tanto!

Vou-me embora pro passado.

O dia em que enfrentei um bando de ciganos – com as mãos limpas

É fato. Botei um monte de ciganos pra correr, sozinha, com autoridade que Deus me deu – Supernanny de adultos em ação. Mas a coisa foi séria, e merece reflexão.

Senta que lá vem a história, e é grande. Se cansar, fecha a página e pronto, mas não reclama não, tá?

Já tem uns 6 ou 7 anos. Eu dava aulas de bordado na igreja em que fazia parte, para mulheres da comunidade, durante 2 tardes por semana [sim, eu sou prendada, e houve um tempo em que eu não trabalhava nem estudava, na verdade foi logo depois de ter retirado um nódulo na tireóide, e fiquei um tempão de molho, aí aprendi a bordar e depois resolvi ensinar. Mas isso é outra história…].

Numa dessas tardes, chegou lá uma cigana com a filha, jovem e grávida, com a barriga na boca, já nos dias de ganhar neném. Só a visão de ciganos assusta, pela vestimenta, pelo jeito um tanto agressivo de falar, pelas imposições que eles trazem em si… e não nego que me assustei. Mas aquela mãe chegou tão decidida e foi tão clara, que não me deu alternativa. Ela queria que a gente “orasse pela filha dela, que estava já no tempo de parir, e elas estavam com medo”.

Com calma, perguntei o nome das duas, tentei conversar escondendo o susto e o nervoso, mas oramos pela futura mamãe, convidamos pra voltar à igreja no domingo, e elas foram embora mais calmas do que chegaram.

Abre parênteses:

Aqui em Ilhéus tem uma comunidade grande de ciganos, com pelo menos três acampamentos, e agregado a eles uma quantidade razoável de casas que foram sendo compradas. Os acampamentos são de barracas de lona quadradas, e com aquele monte de panelas brilhando ao sol. Um desses acampamentos era perto da igreja, e as aulas de bordado eram na área da frente, sombreada e aberta, por isso elas puderam chegar até nós, pois não podem entrar em em casa de “gajões” (não-ciganos) e muito menos em igrejas.

Fecha parênteses.

No grupo de mulheres que bordava, havia uma que era auxiliar de enfermagem na maternidade da cidade, e no dia seguinte, ela me ligou agoniada: “Vem correndo aqui no hospital, que a ciganinha ganhou neném e o menino – lindo – nasceu com lábio leporino, e tá uma confusão danada com a família.”

Fui correndo, meio sem saber o que fazer, mas a ida da mãe e da avó do menino na véspera até a igreja me soava como um pedido de ajuda, e eu atendi. O que vi, naquela enfermaria de hospital, me deixou arrasada/indignada/desesperada e vieram forças não sei de onde – mentira, sei sim, só pode ter sido de Deus – pra que eu fizesse o que fiz.

Além do bebê deitado no bercinho e a mãe acuada e em desespero, estavam no quarto uns 6 ou 7 homens e mais a avó do bebê, todos gritando ao mesmo tempo. A mãe e a avó choravam. A enfermeira me explicou: Para os ciganos, uma má-formação no bebê é inaceitável. Eles simplesmente rejeitam a criança. Não faz diferença quem sejam os pais, a comunidade decide que não quer a criança, e eles largam no hospital ou podem chegar ao extremo de matar o bebê defeituoso.

Gritos de “isso nunca aconteceu no nosso meio” se misturavam com gritos de “maldição, maldição!” e com o choro da mãe que não podia nem pegar seu bebê no colo. O pediatra já havia explicado que com dois meses podia ser feita uma primeira cirurgia e depois de um ano uma segunda, e a criança teria uma vida normal, mas eles não ouviam, ou não queriam ouvir.

Os homens estavam a ponto de pegar o bebê pra matar, quando eu cheguei e botei todos pra fora do quarto, inclusive a avó da criança, fechei a porta e me concentrei em acalmar a mãe, enquanto a segurança do hospital era chamada pra levar a ciganada pra fora.

Com calma, o pediatra e eu conseguimos convencer a mãe que o lábio leporino era algo contornável, e que o bebê precisava dela, de amor, de apoio e cuidado, e ela finalmente o pegou no colo, decidindo entrar na briga e enfrentar a comunidade pra defender o filho.

Naquele dia e em vários outros que se seguiam, pude ter mais contato com aquela menina-mãe, assustada e desorientada, que foi praticamente excluída da convivência com sua família e sua comunidade. Em nossas conversas, aprendi muito sobre a cultura e os costumes ciganos, coisas que me deixaram de queixo caído:

Mulher e nada é quase a mesma coisa. As meninas só podem ir À escola até à 3a. série, para aprender “a ler e fazer conta”, não precisa mais que isso, enquanto os meninos estudam até quando quiserem, geralmente vão até à 8a série do ensino fundamental.

Os casamentos continuam a ser arranjados, e geralmente dentro do mesmo grupo de ciganos. E a partir de quando são prometidos um ao outro, o casal não pode se encontrar a sós, e nem mesmo se falar, mesmo que sejam primos, e tenham tido uma convivência familiar até então. A moça não tem o direito de se negar a casar, e depois que casa, é praticamente uma empregada do marido. Cozinha, lava e passa o que ele quer, do jeito que ele quer. Não existe conversa sobre respeito e igualdade entre os gêneros, e fidelidade é algo que só funciona pro lado da mulher.

Uma vez deixei de dar carona pra essa jovem mãe (que passou a frequentar as reuniões da igreja com a mãe, desde que essas reuniões não fossem na igreja, sacomé? Nas casas das pessoas elas até podiam ir, na igreja, não.) porque meu filho adolescente estava no carro. Elas não podiam entrar no mesmo carro que um homem, se esse não fosse seu marido, ou um outro cigano da mesma comunidade.

Essa mesma mulher que não pode pegar carona comigo por causa de Abelzinho,  já havia pego o marido com outra(s), mas não podia dizer nada, aquilo era como tinha que ser, como podia ser.

Não vou nem chegar na parte do dinheiro emprestado a juros e nem dos cheques sem fundos comprados de factorings e cobrados violentamente dos emitentes. O que me horrorizou mesmo foram esses costumes do dia-a-dia que envolvem, mais do que qualquer coisa, o respeito à mulher como pessoa, e a triste submissão delas, desde a maneira de se vestir até o comportamento de capacho a que elas têm que se enquadrar.

Depois que deixei de trabalhar naquela igreja, perdi o contato com a moça, mas soube que o bebê foi operado, e estava normal, na medida do possível. Às vezes passo pela frente da casa dela e sinto vontade de parar e entrar, voltar a conversar com ela, saber como andam as coisas, mas tenho medo. Não por mim, mas por ela. Afinal de contas, ter uma amiga que não faz parte do grupo só faz com que ela seja ainda mais discriminada.

A vida de ciganos “ao vivo” é bem diferente do que foi mostrada há algum tempo atrás na novela de Glória Perez, Explode Coração. O meu coração quase que explode de verdade ao constatar esse tipo de coisa acontecendo em pleno século XXI.

– Post inspirado no post do Madruga em claro.