Um mês especial – Dia 12

Um conto.

Juro que desejei escrever um conto meu mesmo, ou republicar um dos dois que já coloquei aqui. Também pensei em republicar a Menina do Cadarço Desamarrado, de Line, mas hoje (09/07/2010) tomei conhecimento do conto vencedor do Primeiro Concurso Literário de Arte Cemiterial de Piracicaba. Embora eu nunca tivesse ouvido falar em “arte cemiterial”, adorei o conto. Ah, a Carla Ceres também ficou em segundo lugar no concurso de microcontos da ABL.

A SÉTIMA ESCULTURA

(Carla Ceres)

Eu tinha apenas sete anos e estava ajudando meu pai na marmoraria quando aconteceu pela primeira vez. Foi rápido demais. Apaguei enquanto varria o chão. Correram parentes, correram clientes, correram vizinhos, correu a notícia:
– O Zizinho da marmoraria morreu!
Esse “Zizinho” era eu, mas só me chamavam assim depois de morto. Em vida, eu era “aquele moleque do Ziza”, “aprendiz de capeta”.
Foi tanta gente carinhosa vindo chorar no meu velório que desisti de morrer e voltei.
– Catalepsia – diagnosticaram os clientes mais cultos.
– Milagre – concluiu minha mãe.
– Parte com o diabo – sentenciaram os vizinhos.
A família precisou me desterrar para a casa de um tio, porque os clientes começaram a evitar nossa marmoraria. Achavam que eu não dava sorte.
Tio Olavo foi bom para mim. Generosamente aceitou minhas dez horas de trabalho diário, como aprendiz, na fundição. Assim eu não sentiria que estava “morando de favor”. Permitia-me, também, continuar esculpindo nos momentos de folga.
Ah, as esculturas, minha paixão, estiveram sempre comigo! Meu pai restaurava peças de mármore e me ensinou a esculpir usando retalhos de pedra. Na fundição, eu economizava cada centavo para imortalizar, em bronze, minhas pequenas criações.
Aos catorze anos, aconteceu de novo: morri e desmorri bem rápido. Tio Olavo se aborreceu. Era ”má publicidade”. Vendeu minhas estatuetas “pra pagar o prejuízo”. Um comprador, dono de galeria, gostou delas e me arranjou uma bolsa para estudar artes plásticas.
– Se ele vai perder tempo estudando desenho – disse tio Olavo – é melhor arrumar um emprego de verdade pra se sustentar.
Fui trabalhar na galeria. Trabalho fácil, estudo interessante, muito tempo livre, material à vontade para esculpir, passeios a museus… era o paraíso! E o paraíso é o inferno quando aparece assim, de repente, para quem não está acostumado com a boa vida. Comecei a pensar na morte.
As esculturas vendiam bem… e eu pensando na morte. Eu ganhava prêmios… e pensava na morte. Minha exposição era um sucesso… e a morte me fazia delirar.
Delírio ou visão? Não sei.
Eu ia fazer vinte e um anos e cismei que morreria de novo e, dessa vez, poderiam me enterrar vivo. O terror foi tanto que passei mal. O mundo se transformou numa neblina brilhante. Um anjo de mármore apareceu e falou comigo. Disse que meu mal nunca mais me atacaria se, a cada sete anos, eu doasse uma escultura para um cemitério. Seriam sete esculturas, uma a cada sete anos, o anjo da visão me disse.
A primeira doação foi para meu próprio pai, que faleceu no mês seguinte. image Fiz um anjo da saudade. Meu tio Olavo gostou tanto que se ofereceu para me aceitar de volta na fundição. Abri mão da oferta porque estava com exposição marcada fora do país.
O túmulo de minha mãe, morta sete anos depois, recebeu a escultura de uma pranteadora. Eu ainda estava rezando quando tio Olavo bateu no meu ombro.
– Voltou da Europa pra enterrar os parentes? Veio fazer bonito pros jornais mostrarem como o “grande artista” é generoso?
Olhei incrédulo para ele.
– Pare de me olhar com essa cara de abutre! E guarde suas esculturas pro seu enterro! Eu ainda vou viver muito.
E viveu mesmo. Doei outras esculturas para pessoas desconhecidas, a cada sete anos. Meu mal nunca mais me afligiu. Enriqueci, envelheci e esperei. Esperei, ansiosamente, a morte de tio Olavo. Preparei, com todo ódio, a escultura de seu túmulo: a escultura de um velho com olhos maus, deixando cair um livro de contabilidade.
No ano em que eu deveria entregar a sétima escultura, tio Olavo adoeceu. Obstinadamente, aguardei seu falecimento, porém meu aniversário chegou e tio Olavo melhorou.
Morri ao receber a notícia de sua saída do hospital. O velho miserável me enterrou mais que depressa e ainda mandou colocar sua escultura por cima do meu cadáver.
Agora estou enterrado, mas continuo bem vivo. Quem quiser uma prova é só visitar meu túmulo, pois, de sete em sete anos, quando faço aniversário, o livro da escultura se abre e, em vez de contabilidade, suas páginas metálicas ilustram a história da minha vida.

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“A Estátua” – Patrícia Daltro

Hoje é sexta-feira, e encerramos oficialmente as publicações  dos contos selecionados no Concurso de 4º aniversário do Deixoler. Fiquei mais do que satisfeita com a comemoração desse aniversário. Agora só imagino o que é que vou ter que inventar para o próximo ano…

A Estátua – Patrícia Daltro

“Estava quase chegando na praça, quando ouviu os passos. Um roçar leve, imperceptível, mas que ecoaram em seus ouvidos como um rufar de tambor.

A rua estava deserta, quase às escuras. Prendeu a respiração e acelerou o passo. A outra pessoa imitou-lhe.

Um suor frio escorreu-lhe da fronte, as mãos úmidas agarraram-se na alça da bolsa. Queria olhar para trás, enxergar quem a seguia, mas não tinha coragem. E, se fosse algum assaltante? E, se fosse algo pior? A mente já não raciocinava mais, só pensava em chegar em algum lugar seguro. Olhava desesperadamente as casas, mas não havia nada, a não ser uma escuridão feroz. Os olhos cheios de lágrimas, lutando contra o pânico.

Seu coração bateu desgovernado, quando além dos passos, começou também a ouvir o sibilar de uma respiração.

Estava na praça agora. Após ela, sua casa e a segurança. Escura e deserta, a praça parecia morta, cemitério de bancos e brinquedos.

Um som metálico chamou seu nome. Virou-se, sufocando um grito quando finalmente soube quem a seguia. A sua frente, a velha Estátua da praça abriu um sorriso e parou.

Involuntariamente caminhou na direção da Estátua. Estremeceu quando esta lhe tocou a face. Ainda assim, deixou-se tocar.

Sentiu que deveria reagir, fugir. Mas, não conseguia. Estática, mantinha-se ali, deixando-se desbravar por dedos metálicos.

Aproximaram-se e um beijo longo e gelado uniu suas bocas. Era como estar se afogando, sentir-se tragada por um mar de águas salgadas, frias e distantes. Então, um frio intenso pareceu-lhe congelar as entranhas, o som de seu coração passou a soar cada vez mais lento e distante e uma escuridão caia-lhe sobre os olhos.

Quando percebeu, lutava para livrar-se daquele abraço, tentando libertar-se daquele beijo que lhe sugava a alma, o frio cada vez maior, entorpeciam-lhe os membros…

A manhã encontrou-a sozinha na praça, os raios de sol a reluzirem no metal suave de seus cabelos.”

“Prosa e Poesia” – Elaine Gaspareto

Continuando a série de publicação dos contos finalistas do Concurso de 4º aniversário do Deixoler, hoje trago para vocês um dos quatro contos enviados pela Elaine, Prosa e Poesia.

Quando era menina Marina vivia escrevendo poemas em cada pedacinho de papel que lhe caía em mãos. Com o tempo seus poemas podiam ser encontrados nos lugares mais inesperados: debaixo de almofadas, nas dobras dos lençóis, nos potes de farinha. Eram poemas curtinhos, que falavam de um amor bonito, que sempre dava certo, que sempre era feliz no final.

Marina cresceu. Os poemas passaram a ser escritos em agendas cor de rosa, que Marina guardava bem escondidas, pois poemas adolescentes contêm segredos… Marina começou a desejar viver um amor como os que ela descrevia em seus poemas.

Então ela conheceu o menino mais bonito do mundo. Todo poema parecia pálido para descrever tanto amor, tanto querer e tanto desejar.

Marina engravidou aos 17 anos. Aos 20 teve o segundo filho. Os poemas agora falavam de solidão e de medo. Medo de engravidar outra vez, medo do menino mais bonito do mundo ir embora. Mas o menino mais bonito do mundo não pensava em ir embora. Ao invés disso ele passava o tempo todo maravilhado com aquela esposa tão bela, tão cheia de poesia; começou a escrever coisas para ela. Não era poesia, era prosa. Escrevia romances possíveis, falava do amor imenso e lindo dele pela poesia dela. Falava dos filhos perpetuando tanto amor, tanto querer.

Com o tempo seus contos começaram a ser encontrados em lugares inesperados: na gaveta das fraldas do bebê, nas toalhas de mesa, nos potes de farinha.

Quando o filho mais velho foi à escola pela primeira vez o pai comprou para si um caderno de bichinhos igual ao do menino. Caprichava na letra para que o filho pudesse ler um dia. E a poesia dela mudou novamente. Falava de alegria, da festa que era a casa. Voltou a falar de amores felizes. Falava do amor que dava certo.
Os filhos cresceram e aprenderam a ler através do caderno de bichinhos tantas vezes renovado do pai e da agenda cor de rosa da mãe. A poetisa e o menino mais bonito do mundo vivem felizes para sempre.

Ontem publicaram o terceiro livro escrito a quatro mãos: metade prosa, metade poesia.

Nesta data querida – Silmara Franco

“Já que você perguntou, eu conto. Este gorro aqui tem vinte e três anos. É do tempo em que eu morava no casarão. A Dona Jandira tinha entrado na sala e desabado os três sacos de lixo sobre o tapete. Mas não eram sacos com lixo. Quer dizer, o que tinha dentro era o lixo de alguém. Mas não era para nós. Aquilo era o nosso guarda-roupa. Ninguém ali ganhava roupa nova. Nunca. Sempre usada.

Quando Dona Jandira chegava com os sacos, as crianças iam descendo a escada curiosas, ressabiadas, uns sentavam nos degraus e ficavam espiando pelas grades. O Francisco mesmo, era um que nunca descia. Ficava encarapitado lá em cima, com o livro de eletricidade que ele adorava no colo. O livro veio num dos sacos uma vez, ele pegou e não largou mais. Dona Jandira já estava acostumada. Depois ela separava o que servia nele. Nesses dias sempre tinha um alvoroço no ar. Eu ficava alegre de ver os sacos, mas não entendia porque quase nunca tinha alguma coisa para mim.

Dona Jandira usava os cabelos presos atrás, de um jeito que os olhos dela ficavam até meio puxados. Ela era a presidente do nosso casarão. Cuidava de nós, criava as regras e as mudava, quando ninguém obedecia. Fazia nossa comida, lavava nossa roupa, dava bronca quando alguém tirava nota ruim, apartava briga. Dava bom dia e boa noite com beijo, disso eu não gostava muito. Ela ria o dia todo, achava tudo engraçado. Acho que era o jeito que ela encontrava para não ficar doida. Éramos nove, cada um com um motivo para estar ali. Com ela, dez. Mais a Candinha que vinha ajudar, onze. Padre Tomás não contava, ele não vinha muito. No começo eu achava que ele e a Dona Jandira eram namorados. Nunca tinha visto padre que não usava batina. Um dia perguntei e ela riu, como sempre. E disse que ele era casado com Deus. Achei estranho, Deus não era mulher.

Eu gostava de sentar atrás das suas pernas quando ela se deitava no sofá para assistir a novela. As pernas eram uma rua comprida, eu colocava minhas bonecas em cima delas e fazia de conta que estavam todas indo para uma festa. A bunda era o casarão. Dona Jandira tinha um bundão.

As crianças foram abrindo os sacos e tirando tudo de dentro, Dona Jandira tentando organizar, mas a molecada não deixava. Foi vestido pra um lado, blusa pro outro, aquele monte de meias espalhadas. A Sandrinha vestiu uma calça ao contrário, ficou entalada, perdeu o equilíbrio e bateu a cabeça na parede. Eu achei que ela tinha morrido.

Dona Jandira sabia que era meu aniversário, ia até ter bolo no sábado. Eu percebi que ela tentava encontrar no saco alguma coisa bem bonita para mim. Mas daquela vez tinha vindo mais coisa de criança pequena, e mais coisa de menino. Eu era a mais velha por lá. Tinha doze anos, e usava tamanho dez. Mesmo assim, nada serviu. Tinha uma camiseta azul-céu linda, com a letra F bordada do lado esquerdo. Experimentei, mas ficou curta. Puxei na frente, para baixo, mas Dona Jandira balançou a cabeça. Foi pro Francisco. E ele nem gostou dela depois.

No terceiro lote eu já tinha perdido as esperanças, quando ela tirou, toda animada, um gorro de lã vermelho. Quer coisa mais simples que gorro? Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça. Ficou para mim. Naquela noite a Dona Jandira ficou sentada ao meu lado na cama. Ela ia fazendo cafuné nos meus cabelos enquanto cantava baixinho, bem devagar e quase sussurrando… Parabéns pra você… nesta data querida… E eu fingi que dormia, para ela poder chorar sossegada.”

Como planejado, estou publicando os quatro melhores contos recebidos. Este foi o segundo conto selecionado no Concurso de Contos e Microcontos dos 4 anos do Deixoler. A Silmara publicou no blog dela logo após enviar para o concurso, então alguns de vocês já podem ter lido lá, mas quem não leu… delicia-se por aqui mesmo.

E amanhã tem mais.

(Estou às voltas com um artigo para entregar e preciso terminá-lo com urgência. Então… fica pra depois os comentários sobre Bastardos Inglórios, filme muuuuuuito bom, que assisti com o filhote ontem.)